27
Jun 14

"O boi morreu naquela madrugada de Abril."

O boi morreu naquela madrugada de Abril.

António adormecera a seu lado, caído de sono nas palhas.

Quando acordou, a candeia velava ainda e o boi-amigo morto.

Morto. Bezerrinho, custara sete notas na feira de Ancião.

Cacilda chorou silenciosamente; os filhos acariciaram o lombo,

trémulos de medo e espanto.

Abril e a terra por lavrar.

Abril e daí a meses o milho sem o dorso rijo do boi a caminho da eira.

O pasto apodrecendo no monte.

As oliveiras por amanhar.

Abril, madrugada, e o boi-amigo morto.

Deus nos perdoe: Antes se fosse gente.

 

Fernando Namora, Terra

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13
Jun 13

TERRA

9

 

Se o vento dorme,

quem soprará as velas do moinho?

E a chuva para o milho?

      -- Senhor, valei-nos!

Se o vento dorme,

quem buscará as nuvens de longe?

O povo debruçado sobre os céus;

-- onde andará a chuva? onde andará o vento?

       -- Santo António, protector da freguesia, valei-nos!

A terra sua um suor torrado de seca.

       -- Virgem Maria, valei-nos!

Ah, mas lá vem o sr. prior com as ladainhas

e a água benta para a terra.

       -- Escutai o clamor dos homens e dos campos! Senhor, valei-nos!

Se o vento dorme,

quem buscará as nuvens de longe?

 

Fernando Namora,

Terra

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06
Mar 13

"Sobe no ar o fumo das chaminés dos casais."

Sobe no ar o fumo das chaminés dos casais.

Entre os braços nus das árvores, sobe, sobe no céu.

Lume na lareira -- carne fumada de inverno,

matança de porco,

arca com grão,

roca com linho -- abençoado Deus!

Mas há os velhos na aldeia a quem o moleiro não fia.

Foram-se os filhos na guerra ou no mar ou num ovário estéril.

Nem braços nem terra: ossos roídos ao frio.

A cinza apagada da lareira é da cor do céu.

 

Fernando Namora

Terra

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22
Out 12

TERRA

2

 

Todos os caminhos vão encontrar as «almas».

De pedra branquinha, cruz talhada no cimo

e as chamas que o Senhor atiçou para purificar as almas.

Padre-nosso... Ave-Maria...

O pintor nem esqueceu o pudor dos penitentes.

Padre-nosso... Livrai-nos do fogo, Santo Deus!

Há uma caixinha para as esmolas da igreja.

E o trabalhador vem, despeja a reza e a moeda.

Mas veio um ladrão e roubou o dinheiro.

Sacrílego!

O Senhor lá continua sentado no trono.

E o fogo revive no corpo dos homens.

 

Fernando Namora

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29
Abr 12

TERRA

1

 

Lá em cima, o campanário branco e o galo dos ventos.

A torre deve dez metros de altura ao brasileiro dos Casais.

Meu avô doou um pedaço de quintal. Os outros fizeram o resto.

E hoje -- badalão! badalão! -- toda a serra

tem os ouvidos claros para o som de bronze.

 

Fernando Namora

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17
Mar 12

Novo Cancioneiro

título: Novo Cancioneiro
prefácio, organização e notas: Alexandre Pinheiro Torres
edição integral: Terra, de Fernando Namora; Poemas, de Mário Dionísio; Sol de Agosto, de João José Cochofel; Aviso à Navegação, de Joaquim Namorado; Os Poemas de Álvaro Feijó; Planície, de Manuel da Fonseca; Turismo, de Carlos de Oliveira; Passagem de Nível, de Sidónio Muralha; Ilha de Nome Santo, de Francisco José Tenreiro; Voz que Escuta, de Políbio Gomes dos Santos.
edição: Editorial caminho
local: Lisboa
ano: 1989 
págs.: 413
dimensões: 24x17,5x2,2 cm. (brochado)
impressão: Gráfica da Venda Seca
capa: Mário Caeiro sobre ilustração de Carlos Marques
tiragem: 3000
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