01
Abr 13

DESENHOS DA SÉRIE "POETA" (JÚLIO)

Vais pela estrada fora:

os teus passos de vento

percorrem florestas e cidades

como se cada hora,

cada momento,

te desse um novo rosto sem idade.

 

Vais pela estrada sem fim

e o teu olhar tem asas;

transformas-te em palhaço, em arlequim,

e atravessas mil ruas com mil casas

onde há sempre um segredo,

a música do mundo que se entrega

à tua fantasia.

Vá lá, não tenhas medo:

cada palavra cega

é a luz do teu dia.

 

Prossegue o teu caminho:

talvez encontres uma rapariga

que te veja sozinho

e logo te persiga

por essa estrada de quimeras.

Nunca desistas -- mesmo que procures

sem saber onde um sonho antigo,

os milagres que esperas

algures

virão ter contigo.

 

Fernando Pinto do Amaral,

Série Poeta -- Homenagem a Júlio / Saul Dias

publicado por RAA às 18:50 | comentar | favorito
09
Abr 11

A Luz da Madrugada

autor: Fernando Pinto do Amaral (Lisboa, 12.V.1960)
título: A Luz da Madrugada
editora: Publicações Dom Quixote
local: Lisboa
ano: 2007
págs.: 128
dimensões: 21x15x0,8 cm. (brochado)
impressão: Manuel Barbosa & Filhos
publicado por RAA às 23:55 | comentar | favorito
26
Dez 10

AVISOS

Teria amado o vento e a fala dos bosques,
as imagens da noite, os pequenos avisos
do coração. Iria regressar
por outros olhos às cores do inverno.

Fernando Pinto do Amaral
publicado por RAA às 18:34 | comentar | favorito
21
Dez 10

PALAVRAS

Sentas-te ainda à mesa -- escreves
palavras tão compactas, tão opacas
como a luz que te cega. Cada dia
promete o infinito em meia dúzia
de palavras -- o amor,
a vida, o tempo, a morte, a esperança,
o coração. Repete-as,
repete-as muitas vezes em voz alta
e escuta a sua música
até não quererem dizer nada.

Fernando Pinto do Amaral
publicado por RAA às 23:57 | comentar | favorito
18
Dez 10

NAUFRÁGIO

Erraste muito tempo sem saber
quantos anos durou dentro de ti
a primavera         Nada
nessa água te lava já o rosto
ou que deles resta submerso
nas correntes marítimas da morte
como líquido espectro ou colorida
anémona          A memória
mascara pouco a pouco essas imagens

Erraste sem saber qual a matéria
da tua vida          O fogo
acendeu hoje a casa do teu corpo
tão cedo arruinado e tu naufragas
nessa doce catástrofe
na espuma desse mar        Qual o instante
em que o verão se transforma no outono
se o arrepio da noite quando chega
parece ainda um luminoso dia?

Fernando Pinto do Amaral
publicado por RAA às 15:11 | comentar | favorito
31
Jul 10

LIÇÃO

Quiseras que este mundo te ensinasse
uma palavra nova,
uma gota de luz que atravessasse
os corações de toda a gente,
o seu coro de espectros dissonantes,
o corredor tão escuro onde se abriga
o princípio do medo,
a tua alma em pânico.

Fernando Pinto do Amaral
publicado por RAA às 19:56 | comentar | favorito