19
Fev 14

A UM ROUXINOL CANTANDO

Ramalhete animado, flor do vento,

Que alegremente teus ciúmes choras

Tu, cantando teu mal, teu mal melhoras,

Eu, chorando meu mal, meu mal aumento.

 

Eu digo minha dor ao sofrimento,

Tu cantas teu pesar a quem namoras,

Tu esperas o bem todas [as] horas,

Eu temo qualquer mal todo o momento.

 

Ambos agora estamos padecendo

Por decreto cruel do deos minino;

Mas eu padeço mais só porque entendo.

 

Que é tão duro e cruel o meu destino,

Que tu choras o mal que estás sofrendo,

Eu choro o mal que sofro e que imagino.

 

Francisco de Vasconcelos

in Maria Ema Tarracha Ferreira,

Antologia Literária Comentada --

Época Clássica -- Século XVII

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15
Jan 13

AO MESMO ASSUNTO

Baxel de confusão em mares de ânsia,

Edifício caduco em vil terreno,

Rosa murchada já no campo ameno,

Berço trocado em tumba desd'a infância;

 

Fraqueza sustentada em arrogância,

Néctar suave em campo de veneno,

Escura noite em lúcido sereno,

Serea alegre em triste consonância;

 

Viração lisonjeira em vento forte,

Riqueza falsa em venturosa mina,

Estrela errante em fementido norte;

 

Verdade que o engano contamina,

Triunfo no temor, troféo da morte

É nossa vida vã, nossa ruína.

 

Francisco de Vasconcelos

(Antologia Literária Comentada -- Época Clássica -- Século XVII,

edição de Maria Ema Tarracha Ferreira)

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04
Set 12

À FRAGILIDADE DA VIDA HUMANA

 Esse baxel, nas praias derrotado,

Foi nas ondas Narciso presumido;

Esse farol, nos céos, escurecido,

Foi do monte libré, gala do prado.

 

Esse nácar, em cinzas desatado,

Foi vistoso pavão de Abril florido;

Esse estio, em Vesúvios encendido,

Foi Zéfiro suave, em doce agrado.

 

Se a nao, o Sol, a rosa, a Primavera,

Estrago, eclipse, cinza, ardor cruel

Sentem nos auges de um alento vago,

 

Olha, cego mortal, e considera

Que és rosa, Primavera, Sol, baxel,

Para ser cinza, eclipse, incêndio, estrago.

 

Francisco de Vasconcelos

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