30
Mar 11

CANTIGA

Descalça vai para a fonte
Leonor pela verdura,
Vai formosa e não segura.

A talha leva pedrada,
Pucarinho de feição,
Saia de cor de limão,
Beatilha soqueixada;
Cantando de madrugada
Pisa as flores na verdura:
Vai formosa e não segura.

Leva na mão a rodilha
Feita da sua toalha,
Com uma sustenta a talha,
Ergue com outra a fradilha;
Mostra os pés por maravilha,
Que a neve deixam escura:
Vai formosa, e não segura.

As flores por onde passa,
Se o pé lhe acerta de pôr,
Ficam de inveja sem cor
E de vergonha com graça;
Qualquer pegada que faça
Faz florescer a verdura:
Vai formosa, e não segura.

Não na ver o Sol lhe val,
Por não ter novo inimigo,
Mas ela corre perigo
Se na fonte se vê tal;
Descuidada deste mal
Se vai ver na fonte pura:
Vai formosa, e não segura.

Francisco Rodrigues Lobo
publicado por RAA às 16:22 | comentar | favorito
08
Out 10

CANTIGA

Antes que o Sol se levante
Vai Vilante a ver o gado,
Mas não vê Sol levantado
Quem vê primeiro a Vilante.

                       VOLTAS

É tanta a graça que tem
Com uma touca mal envolta,
Manga de camisa solta,
Faixa pregada ao desdém,
Que se o Sol a vir diante
Quando vai mungir o gado,
Ficará como enleado
Ante os olhos de Vilante.

Descalça às vezes se atreve
Ir em mangas de camisa,
Se entre as ervas neve pisa
Não se julga qual é neve;
Duvida o que está diante
Quando a vê mungir o gado,
Se é tudo leite amassado,
Se tudo as mãos de Vilante.

Se acaso o braço levanta
Porque a beatilha encolhe,
De qualquer pastor que a olhe
Leva a alma na garganta;
E inda que o Sol se alevante
A dar graça e luz ao prado,
Já Vilante lha tem dado,
Que o Sol tomou de Vilante.

Francisco Rodrigues Lobo
publicado por RAA às 14:22 | comentar | favorito
06
Out 10

...

Estava Lereno enleado com seus cuidados junto duma fonte, quando «ouviu grande alvoroço e festa das serranas, que vinham buscar água à fonte e traziam no meio um vaqueiro ancião com ua rabeca, a cujo som elas em gracioso baile cantavam o seguinte:

Olhos graciosos
de tão boa estreia
não nos há na vila
como nesta aldeia.

Vale mais o desdém
da humilde serrana,
que a vista que engana,
olhos que não vêem.
Não cuide ninguém
que há por esta serra
coração sem guerra
nem serrana feia;
não nas há na vila
como nesta aldeia.

Se os cabelos solta
Lianor ao vento,
com seu movimento,
a touca revolta;
faz ao sol dar a volta
com desejo e gosto,
inda que do rosto
seus raios receia;
não nos há na vila
como nesta aldeia.

A seda custosa
fará mais louçã,
mas não faz a lã
ser menos formosa;
como a bela rosa,
tem preço dobrado
quando, no cerrado,
de espinhos se arreia;
tais são as serranas
desta nossa aldeia.

Chegaram ao pé da fonte com esta alegria e saudaram ao Peregrino que, com inveja daquela liberdade, as estava olhando...»

Francisco Rodrigues Lobo
publicado por RAA às 23:01 | comentar | favorito