16
Jul 12

MARCHA TRIUNFAL

Surge a locomotiva

Longa, omnipotente.

Quantas rodas em rodopio!

Hálito quente e frio,

Metais em carne viva...

 

Depressa

Começa

A fugir, fustigante, felina.

Duas nódoas de fogo à frente,

Tudo em jogo:

Ferro, aço, carvão, destroços e resina

 

Mas enquanto isto digo,

Não consigo

Traduzir o relâmpago, a vertigem

De tal velocidade!

Mas tal e qual suponho,

Um instante de sonho

Fugitivo...

 

Forte, febril, fervente, este phallus fura o espaço.

 

Gil Vaz

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05
Jan 11

ANDANTE

Além, ao largo, ligeiro...
Volta o navio.

Traz muitas léguas andadas,
Traz muitas tábuas quebradas
E muitas cordas partidas.
Certo dia perdeu vidas
Além, ao largo, ligeiro...
Vida dum raio!
Oh! fumos de marinheiro,
Hálitos rudes da onda,
Baloiço de Portugal!
Meu santo!
É ele o navio
Além, ao largo, ligeiro...

Eu digo
Não sei porquê
Que se parece comigo:
Noto-lhe as velas doiradas
Já no fio...
E rio...
Pois já se vê.
No entanto,
Volta e não volta
Baloiça o navio...
Além, ao largo, ligeiro...

1927
Gil Vaz
publicado por RAA às 23:59 | comentar | favorito
30
Nov 10

VIRGEM

Sobe, suave, solene coluna de fumo branco...

És vulto que se evapora,
És toda a alma que chora
Sem lágrimas, sem motivo,
Sem uma queixa
Aparente.
           Vivo!
           Em mim
           Existe
           Sòmente
           Uma tristeza
           Sem fim
           Que nem me deixa
           Ser triste
           Aos olhos da outra gente.

           Imagem
           Sempre em viagem,
           Minha impalpável riqueza.

Sobe, suave, solene coluna de fumo branco...

Lisboa,
1927


Gil-Vaz
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