03
Jan 16

A DUQUESA DE BRABANTE

Tem um leque de plumas gloriosas,

Na sua mão macia e cintilante,

De anéis de pedras finas preciosas

A Senhora Duquesa de Brabante.

 

Numa cadeira de espaldar doirado,

Escuta os galanteios dos barões.

-- É noite: e, sob o azul morno e calado,

Concebem, os jasmins e os corações.

 

Recorda o senhor Bispo acções passadas.

Falam damas de jóias e cetins.

Tratam barões de festas e caçadas

À moda goda: -- aos toques dos clarins,

 

Mas a Duquesa é triste. -- Oculta mágoa

Vela seu rosto de um solene véu.

-- Ao luar, sobre os tanques chora a água...

-- Cantando, os rouxinóis lembram o céu...

 

Dizem as lendas que Satã, vestido

De uma armadura feita de um brilhante,

Ousou falar do seu amor florido

À Senhora Duquesa de Brabante.

 

Dizem que o ouviram ao luar nas águas,

Mais loiro do que o sol, marmóreo, e lindo,

Tirar de uma viola estranhas mágoas,

Pelas noites que os cravos vêm abrindo...

 

Dizem mais que na seda das varetas

Do seu leque ducal de mil matizes...

Satã cantara as suas tranças pretas,

-- E os seus olhos mais fundos que as raízes!

 

Mas a Duquesa é triste. -- Oculta mágoa

Vela no seu rosto de um solene véu.

-- Ao luar, sobre os tanques chora a água...

-- Cantando, os rouxinóis lembram o céu...

 

O que é certo é que a pálida Senhora,

A transcendente Dama de Brabante,

Tem um filho horroroso... e de quem cora

O pai, no escuro, passeando errante.

 

É um filho horroroso e jamais visto! --

Raquítico, enfezado, excepcional,

Todo disforme, excêntrico, malquisto,

-- Pêlos de fera, e uivos de animal!

 

Parece irmão dos cerdos ou dos ursos,

Aborto e horror da brava Natureza...

-- Em vão tentam barões, com mil discursos,

Desenrugar a fronte da Duquesa.

 

Sempre a Duquesa é triste. -- Oculta mágoa

Vela seu rosto de um solene véu.

-- Ao luar, sobre os tanques chora a água...

-- Cantando, os rouxinóis lembram o céu...

 

Ora o monstro morreu. -- Pelas arcadas

Do palácio retinem festas, hinos.

Riem nobres, vilões, pelas estradas.

O próprio pai se ri, ouvindo os sinos...

 

Riem-se os monges pelo claustro antigo.

Riem vilões trigueiros pelas charruas.

Riem-se os padres, junto ao seu jazigo.

Riem-se nobres e peões nas ruas.

 

Riem aias, barões, erguendo os braços.

Riem, nos pátios, os truões também.

Passeia o duque, rindo, nos terraços.

-- Só chora o monstro, em alto choro, a mãe!...

 

Só, sobre o esquife do disforme morto,

Chora, sem trégua, a mísera mulher.

Chama os nomes mais ternos ao aborto...

-- Mesmo assim feio, a triste mãe o quer!

 

Só ela chora pelo morto!... A mágoa

Lhe arranca gritos que a ninguém mais deu!

-- Ao luar, sobre os tanques chora a água...

-- Cantando, os rouxinóis lembram o céu...

 

Gomes Leal,

in Edoi Lelia Doura --

Antologia das Vozes Comunicantes da Poesia Moderna Portuguesa

(edição de Herberto Helder, 1985)

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17
Mai 11

ROSA MÍSTICA

               Hour of love.
               Byron. Parisina

Do pôr-do-sol àquela luz sagrada,
Eu perdia-me... ó hora doce e breve!...
Meu peito junto ao seu colo de neve,
-- Numa contemplação vaga e elevada

Nossas almas s'erguiam, como deve
Erguer-se uma alma à Luz afortunada.
Do mar se ouvia a grande voz chorada.
-- Palpitavam as pombas no ar leve.

Eu então perguntei-lhe, baixo e brando:
Em que mundo de luz é que caminhas?
Que torre está tua alma arquitectando?...

-- Ela, travando as suas mãos nas minhas,
Me disse, ingénua, então: -- Estou cismando
No que dirão, no ar, as andorinhas.

Gomes Leal
publicado por RAA às 17:23 | comentar | favorito
27
Out 10

O VELHO PALÁCIO

Houve outrora um palácio, hoje em ruínas,
Fundado numa rocha, à beira-mar...
Donde se avistavam lívidas colinas,
E se ouve o vento nos pinheirais pregar.
Houve outrora um palácio, hoje em ruínas...

Nesse triste palácio inabitável,
As janelas sem vidros, contra os ventos,
Batem, de noite, em coro miserável,
Lembrando gritos, uivos e lamentos.
Nesse triste palácio inabitável...

Só resta uma varanda solitária,
Onde medra uma flor que bate o norte,
Sacudida de chuva funerária,
Lavada de um luar branco de morte.
Só resta uma varanda solitária...

Como nessa varanda apodrecida
Em minha alma uma flor também vegeta...
Toda a noite dos ventos sacudida,
Íntima, humilde, lírica, secreta,
Como nessa varanda apodrecida...

Gomes Leal
publicado por RAA às 14:28 | comentar | favorito
05
Out 10

RISADAS

Soneto dum clown

Talvez cansado já dos teus abraços,
Eu morto busque um dia o céu sem metas,
E ainda vá morar nos planetas,
Eu que tenho vivido entre palhaços.

E que ali deslocando os membros lassos,
Faça com saltos e evoluções secretas,
Que Deus caia, de riso, dos espaços,
Com fortes gargalhadas dos ascetas.

Os Santos olvidando então o rito,
Darão saltos mortais no Infinito,
E eu uma claque arranjarei no Inferno.

Construirei um circo ali no Céu,
E tu virás então morar mais eu
Na água furtada azul do padre Eterno.

Gomes Leal
publicado por RAA às 02:52 | comentar | favorito