09
Nov 10

PORTO, CIDADE VELHA

Na cidade velha do Porto,
no primeiro andar de um restaurante,
a uma mesa de janela,
estava eu com o poeta português Andrade,
um homem seco com gestos de adolescente.

Comíamos tripas e bebíamos o vinho da sua terra
e falávamos um tanto timidamente
das literatura dos nossos países e da França,
voltando sempre à revolução perdida,

enquanto lá em baixo brincavam os filhos dos pobres
e bolas de sabão voavam pela rua,
bola a bola passando pela nossa janela
e voltando sempre, a correr
contra o céu azul
até se desfazerem
contra os muros
sombrios das casas.

Wolfgang Bächler

(João Barrento)
publicado por RAA às 01:23 | comentar | favorito
29
Out 10

...

A nossa linguagem é
mecânica,
atomística
ou dinâmica.
A linguagem poética autêntica
será orgânica, viva.
É tão grande a pobreza das palavras
para dizer de um só golpe
a ideia plural!

Novalis

(João Barrento)
publicado por RAA às 23:25 | comentar | favorito
22
Out 10

SALMO

Ninguém nos moldará de novo em terra e barro,
ninguém animará pela palavra o nosso pó.
Ninguém.

Louvado sejas, Ninguém.
Por amor de ti queremos
florir.
Em direcção a ti.

Um Nada
fomos, somos continuaremos
a ser, florescendo:
a rosa do Nada, a
de Ninguém.

Com
o estilete claro-de-alma,
o estame ermo-de-céu,
a corola vermelha
da purpúrea palavra que cantámos
sobre, oh sobre
o espinho.

Paul Celan

(Yvette Centeno e João Barrento)
publicado por RAA às 16:55 | comentar | favorito