02
Jan 11

E TODOS OS PÁSSAROS

     Eles não tinham escrito os poemas que eu esperava escrever. Mas os livros deles, quem sabe se não faziam nas montras das livrarias o eco da minha própria voz? Assim iam e eram os tempos: fazer-se ouvir dava-nos por momentos, e às vezes durante a vida inteira,  a ilusão de existir, de ter desempenhado um papel e ter encontrado a verdade, um destino. O país era o modelo perfeito e surpreendente dos vícios da raça: ambição, heroísmo, despique. Uma ausência dolorosa e mesquinha por detrás das palavras, e todos os pássaros voavam apenas para serem vistos a cortar com agilidade o azul do céu. Como eu tinha horror a vir a ser pó nesta terra calcinada pelo sol, e lamentava ter nascido longe da modéstia de um destino tranquilo, noutro tempo, à sombra, no meio de outros homens.

João Camilo
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30
Ago 10

NÚMERO DOIS

Beethoven, concerto número dois para piano.
Com um canivete corta-me devagar por dentro
a parte da alma mais encostada à carne.
O prazer que a Camões também doía e as palavras
de depois de inventá-lo. O sol que brilha e ilumina
o verde das primaveras que nesta se repetem. Enu-
merar: como quem coloca cada som depois do outro
e parte para a solidão. Uma lâmina pequena corta-me
por dentro das próprias veias no meu corpo
desconhecido as mais pequenas fibras. E sei que
existem e é delas que se extrai
a revolta com que vou nascendo para
ver-me de pé enquanto reaprendo
a não esquecer que um dia finalmente
tudo terá passado. E esta aventura
de estar aqui hoje há-de perder-se
no tempo que consome tudo e nos consome
a nós o uso de nós mesmos. Afeiçoarei o meu
corpo cada dia mais definitivamente à imagem
da pequena morte que nos chega que toca
os olhos na retina os ouvidos na membrana
do tímpano e passa a circular no sangue com a
embriaguez. Assassínio lento de mim mesmo,
Claudio Arrau pianista chileno vai
pontuando o tactear da lâmina
no meu corpo e eu sentado contemplo as cores
dos objectos à minha volta e vou dando pelo
espanto de assistir à passagem de mim
mesmo pelo que me rodeia.

João Camilo
publicado por RAA às 23:40 | comentar | favorito
11
Out 09

COM A SUA PELE

À mesa do café estava sentada uma rapariga triste, mulher
que já tinha idade. É tão aborrecido ser feio, ter perdido a adolescência.
Álvaro caeiro, meu mestre ou modelo, nem Alberto nem Campos, que
lhe diria se a encontrasse ali como eu depois de jantar?
Ao lado, na avenida, as árvores velhas e enormes também nada sabiam
de certos plátanos que à beira da estrada, caninos e elegantes,
sugeriam imagens com que falar melhor das adolescentes e das vacas
novas, tenros bezerros com o focinho cor de rosa que apetece beijar.
E as raparigas, com a sua pele matinal e fresca, com os seus vestidos
de algodão azul e branco decotados, mostravam o pescoço inteiro, um pouco
do peito em que não tinha ainda pesado o corpo dos homens.
À mulher cansada, rapariga não há muito tempo, eu não disse nada.
Pensei apenas: companheiras interessadas e atentas dos nossos sentimentos,
a natureza é cruel convosco; nem a memória nos fica, nem no vosso rosto
o vestígio daquela que fez sofrer e desejar; sempre
tivestes essa cara triste e calada, o exagero dessa maturidade.
Os plátanos velhos não curvaram os ramos para me ouvir sentir, não bocejaram,
desolados, quando comecei a afastar-me, seguindo o meu caminho.

João Camilo
publicado por RAA às 02:08 | comentar | favorito