07
Mai 15

OS OLHOS FALAM

A V. de C.

 

Pois se como sempre fomos,

               Somos

Pétalas da mesma flor,

E o que eu sinto, ou eu me iludo

               Tudo

Também sentes, gosto e dor;

 

Que te arrasa os olhos de água?

                Mágoa

Em que eu não deva tocar?

Oh! mas se há quem a suavize,

               Dize,

Vou-lhe um suspiro levar.

 

Não se alcança, não se avista,

               Dista

Daqui muito a causa, ou não?

Dos teus olhos, muito; e pouco,

               Louco,

Pouco do teu coração!

 

Sei o que vai em teu seio:

               Cheio

De mal compensado amor,

Debalde os lábio se calam;

               Falam 

Ainda os olhos melhor.

 

João de Deus, Campo de Flores

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18
Jul 14

AMORES, AMORES

Não sou eu tão tola

Que caia em casar;

Mulher não é rola

Que tenha um só par:

     Eu tenho um moreno,

Tenho um de outra cor,

Tenho um mais pequeno,

Tenho outro maior.

 

Que mal faz um beijo,

Se apenas o dou,

Desfaz-se-me o pejo,

E o gosto ficou?

     Um deles por graça

Deu-me um, e depois,

Gostei da chalaça,

Paguei-lhe com dois.

 

Abraços, abraços,

Que mal nos farão?

Se Deus me deu braços,

Foi essa a razão:

    Um dia que o alto

Me vinha abraçar,

Fiquei-lhe de um salto

Suspensa no ar.

 

Vivendo e gozando,

Que a morte é fatal,

E a rosa em murchando

Não vale um real:

     Eu sou muito amada,

E há muito que sei

Que Deus não fez nada

Sem ser para quê.

 

Amores, amores,

Deixá-los dizer;

Se Deus me deu flores,

Foi para as colher:

     Eu tenho um moreno,

Tenho um de outra cor,

Tenho um mais pequeno,

Tenho outro maior.

 

João de Deus,

Campo de Flores

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10
Fev 14

PERDÃO!

Seria o beijo

Que te pedi,

Dize, a razão

(outra não vejo)

Por que perdi

Tanta afeição?

Fiz mal, confesso;

Mas esse excesso,

Se o cometi,

Foi por paixão,

Sim, por amor

De quem?... de ti!

 

Tu pensas, flor,

Que a mulher basta

Que seja casta,

Unicamente?

Não basta tal:

Cumpre ser boa,

Ser indulgente.

Fiz-te algum mal?

Pois bem: perdoa!

 

É tão suave

Ao coração

Mesmo o perdão

De ofensa grave!

Se o alcançasse,

Se o conseguisse,

Quisera então

Beijar-te a mão,

Beijar-te a face...

Beijar? que disse!

(Que indiscrição...)

Perdão! perdão!

 

João de Deus,

Campo de Flores

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24
Fev 12

BOAS NOITES

Estava uma lavadeira

A lavar numa ribeira

Quando chega um caçador:

 

-- Boas tardes, lavadeira!

 

-- Boas tardes, caçador!

 

-- Sumiu-se-me a perdigueira

Ali naquela ladeira;

Não me fazeis o favor

De me dizer se a brejeira

Passou aqui a ribeira?

 

-- Olhai que, dessa maneira,

Até um dia, senhor,

Perdereis a caladeira,

Que ainda é perda maior.

 

-- Que me importa, lavadeira!

Aqui na minha algibeira

Trago dobrado valor...

Assim eu fora senhor

De levar a vida inteira

Só a ver o meu amor

Lavar roupa na ribeira!

 

-- Talvez que fosse melhor...

Ver coser a costureira!

Vir de ladeira em ladeira

Apanhar esta canseira,

E tudo só por amor

De ver uma lavadeira

Lavar roupa na ribeira...

É escusado, senhor!

 

-- Boas noites,... lavadeira!

 

-- Boas noites, caçador!...

 

João de Deus

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11
Set 10

SIMPATIA

Olhas-me tu
Constantemente:
Daí concluo
Que essa alma sente;
Que ama; não zomba
Como é vulgar;
Que é uma pomba
Que busca o par!

Pois ouve: eu gemo
De te não ver!
E em vendo, tremo,
Mas de prazer!
Foge-me a vista...
Falta-me o ar...
Vê quanto dista
daqui a amar!

João de Deus
publicado por RAA às 14:39 | comentar | favorito