11
Mar 13

«A ILHA DOS NAVIOS PERDIDOS»

Aqui é a ilha dos navios perdidos,

dos navios abalroados, afundados

nos naufrágios...

Esta é a ilha perdida nos mapas,

perdida no mar dos sargaços;

este é o mar das Tormentas,

das tormentas desta vida,

onde há só tempestades e agoiros;

o céu

é esta noite negra sem limites

onde não vive um astro, uma nuvem ou uma asa;

a terra é esta,

os cascos oscilantes

dos mil navios perdidos:

Naus da Índia,

barcos piratas de moiros,

fragatas e caravelas,

navios dos Corte-Reais

onde jazem insepultos

os heróis mais verdadeiros

e os sonhos mais colossais.

-- Nos mastros desmantelados

flutuam,

rotos e desbotados,

estandartes imperiais

e nos porões arrombados,

nos cofres de segredos inúteis,

dormem os tesoiros arrancados

a todos os orientes.

 

Não há grandeza que baste

quando a desgraça é tamanha!...

 

Joaquim Namorado,

Aviso à Navegação

publicado por RAA às 13:34 | comentar | favorito
23
Nov 12

VIDA

Após uma onda outra onda:

uma onda que se quebra

outra que se levanta...

Eterno e gasto

e sempre novo movimento das marés!

 

Joaquim Namorado

publicado por RAA às 19:02 | comentar | ver comentários (2) | favorito
10
Jul 12

NAVEGAÇÃO À VELA

Segue:

tens nas bússolas todos os nortes

e nos sextantes

as alturas de todas as estrelas,

que foram feitas só para te guiar.

 

Segue,

nos teus mapas

estão marcadas todas as loxodromias

e nos portos

os cais mansos

estendem-te os braços maternais.

 

Vai

pelo caminho seguro

na certeza de aportar.

Vai

nos vapores das companhias

com baleeiras nos decks

e S.O.S. nas telegrafias

e cintos de salvação.

 

Vai

pelo boulevard iluminado,

pelos caminhos traçados

pelas velhas caravanas

do tempos dos Ramsés...

 

Mas deixa

que eu arrisque a minha vida

nas encruzilhadas escuras

dos bairros criminais,

e vá só

pelos desertos

com simouns e miragens

fora das rotas fatais;

deixa

que eu viva a aventura

sem bússolas e sem astros

-- como nos contos da velha pirataria

que a mim próprio eu contava

nos meus tempos de menino

e em que eu mesmo era o herói

e herói sempre invencível --

que eu amo só

as tempestades bravas

que partem os lemes e os mastros

e rasgam as velas

(asas agonizando nos topos

entre tufões)

e as ondas

grandes como montanhas

que nos arrastam das estrelas aos abismos;

e as marés irresistíveis

que me encalham nos baixios...

Que eu amo só

a vida arriscada

numa espelunca esquecida

duma rua de Xangai

num duelo de facada.

 

Vai

pelos caminhos seguros

nos vapores das companhias

com certeza de aportar...

deixa

que eu continue sendo

o último tripulante

da fragata naufragada

neste mar dos tubarões.

 

Joaquim Namorado

publicado por RAA às 15:32 | comentar | favorito
17
Mar 12

Novo Cancioneiro

título: Novo Cancioneiro
prefácio, organização e notas: Alexandre Pinheiro Torres
edição integral: Terra, de Fernando Namora; Poemas, de Mário Dionísio; Sol de Agosto, de João José Cochofel; Aviso à Navegação, de Joaquim Namorado; Os Poemas de Álvaro Feijó; Planície, de Manuel da Fonseca; Turismo, de Carlos de Oliveira; Passagem de Nível, de Sidónio Muralha; Ilha de Nome Santo, de Francisco José Tenreiro; Voz que Escuta, de Políbio Gomes dos Santos.
edição: Editorial caminho
local: Lisboa
ano: 1989 
págs.: 413
dimensões: 24x17,5x2,2 cm. (brochado)
impressão: Gráfica da Venda Seca
capa: Mário Caeiro sobre ilustração de Carlos Marques
tiragem: 3000
publicado por RAA às 17:11 | comentar | favorito