06
Nov 10

REENCONTRO

A velha ponte-cais de traves carcomidas,
O morro triste, a antiga fortaleza...
O deserto a avançar sobre o mar
E a polvilhar a cidade pobre da sua poeira amarela...
O deserto a sepultar a cidade pobre...

As hortas do Giraul, mancha tímida e verde no areal.
O jardim emurchecido, queimado e ressequido pelo sol de África,
-- Parque frondoso que a memória guardou,
Imagem que a vida destruiu neste reencontro.
O jardinzinho da cidade,
Já sem o coreto para música,
Mas com a fileira dos espectros...

A longa, a interminável fileira dos espectros...
A Miss Blond a acompanhar os meninos a passeio,
O Tigre, pachorrento e mansarrão.

Os pretos, o olhar submisso e espantado,
Com as correntes aos pés,
Na rua de casas térreas e de piso mole.
A Miss Blond deixou de acompanhar os meninos a passeio,
O Tigre, erguido a cão nobre, morreu de velho,
Os pretos quebraram as correntes,
Só os espectros ficaram, pávidos,
Onde os havia deixado;
Só eles povoam a lembrança,
Habitam a cidade;
Só as suas vozes ecoam no deserto,
As vozes estremecidas,
As vozes perdidas
Na casa desabitada que a poeira do deserto cobriu,
Na vida que a poeira do tempo cobriu,
na morte, na saudade, na morte...

     Baía de Moçâmedes, 8 de Dezembro 50.


Joaquim Paço d'Arcos
publicado por RAA às 16:13 | comentar | ver comentários (2) | favorito
20
Ago 10

NÃO QUERO PERDER O NAVIO EM NOVA ORLEANS

Não quero perder o navio em Nova Orleans.
Não quero perder o navio.
Quero subir este vasto e fundo Mississípi
Que foi sonho da minha vida aventureira.
Quero subir o rio de margens baixas, verdes,
O rio lodoso que rasga um continente
Até ao coração desta cidade em perdição perdida.
Quero subir o rio depois de ter visto nos bars escuros
As mulheres nuas de Nova Orleans.
Quero subir o rio na barca antiga,
Igual à das estampas antigas.
Quero subir o rio que já não tem aventura
Para guardar na memória este pedaço de aventura.
Já não há troncos de árvore à deriva no rio,
Mas eu quero agarrar-me ao tronco de árvore
Que à deriva,
No rio,
Arrasta para o mar
Este sonho de fuga
E de abordagem
E de viagem
E de evasão
Para mundos distantes,
Para cidades exóticas,
Para mares insondáveis,
-- Este sonho de fuga
Que marcou, indelével,
No mapa da vida,
O meu destino.

Nova Orleans, 30 de Abril, 52.

Joaquim Paço d'Arcos
publicado por RAA às 23:58 | comentar | favorito