31
Jan 12

CINZEIRO

À noute quando escrevo

Tenho fantasias

Que não chego a escrever

Nem conto a ninguém.

 

Esta, por exemplo,

De ver um paquete

No meu cinzeiro

De feitio oblongo!

 

Ponho nele, de pé,

As pontas dos cigarros.

São mastros

E chaminés fumegantes...

 

Os fósforos

São carregamento

E a cinza

São as cinzas das fornalhas...

 

Deito nele

Pedacinhos de papel que eu rasgo,

-- Restos de algum poema...

São cartas para longe.

 

Voam à roda do meu cinzeiro

Pequeninos insectos tropicais,

Companheiros nocturnos

Dos poetas da minha terra.

 

São os pássaros marinhos,

As gaivotas,

Que vêm espreitar

De perto o paquete.

 

Empurro-o com a mão

E o paquete lá vai,

Com o rumo traçado

Através do Atlântico.

 

Lá vai!

Os passageiros da primeira

Passeiam no «deck»

Ou jogam o «bridge».

 

E a rapariga loura

Estira-se indolente

Na cadeira de lona

A ler um romance...

 

No convés da terceira classe,

Um emigrante qualquer

Debruçou-se na borda

Olhando o horizonte...

Sou eu.

 

Jorge Barbosa

publicado por RAA às 15:19 | comentar | favorito
04
Fev 11

PRELÚDIO

                                                               Para António Aurélio Gonçalves

Quando o descobridor chegou à primeira ilha
nem homens nus
nem mulheres nuas
espreitando
inocentes e medrosos
detrás da vegetação.

Nem setas venenosas vindas no ar
nem gritos de alarme e de guerra
ecoando pelos montes.

Havia somente
as aves de rapina
     de garras afiadas
as aves marítimas
     de voo largo
as aves canoras
     assobiando inéditas melodias.

E a vegetação
cujas sementes vieram presas
nas asas dos pássaros
ao serem arrastadas para cá
pelas fúrias dos temporais.

Quando o descobridor chegou
e saltou da proa do escaler varado na praia
enterrando
o pé direito na areia molhada

e se persignou
receoso ainda e surpreso
pensando n'El-Rei
nessa hora então
nessa hora inicial
começou a cumprir-se
este destino ainda de todos nós.

Jorge Barbosa
publicado por RAA às 14:14 | comentar | favorito
22
Ago 10

REGRESSO

Navio aonde vais
deitado sobre o mar?

Aonde vais
levado pelo vento?

Que rumo é o teu
navio do mar largo?

Aquele país talvez
onde a vida
é uma grande promessa
e um grande deslumbramento!

Leva-me contigo
navio.

Mas torna-me a trazer!

Jorge Barbosa
publicado por RAA às 13:42 | comentar | favorito