27
Dez 10

COMO PODERÁS ENTENDER?

lembro-me sobretudo desses dias.

depois do sol tu vinhas.

eram belas as túnicas de argel e as velhas botas espanholas que te
dera o último amante.

o john lennon gritava
                        give me some truth
                                                give me some truth
e tu rias
                        rias como em noites de festas pagãs.

hoje
sentado neste bar quinhentista e fluvial de um país sonâmbulo
a máquina de discos repetindo êxitos da década 60
os pequenos barcos do rio dirigem-se para oeste
enquanto os marinheiros do passado há muitas horas bebem aguardente.
TU

perdida nas vertiginosas danças bárbaras como antigamente
como poderás entender esses lugares de paixão
onde me sento e bebo
ouvindo as histórias da época prodigiosa?

José Agostinho Baptista 
publicado por RAA às 23:55 | comentar | favorito
24
Dez 10

DESAMPARO

Não posso olhar de frente as torres deste castelo
habitado pelas trevas.
Quando os lobos uivam e aberta já está a lua,
as flores amargas dos teus olhos
desfazem-se aos meus pés.
E o pó, as cinzas, os restos de tudo o que
respirava,
amontoam-se à beira deste mar.

José Agostinho Baptista
publicado por RAA às 18:47 | comentar | ver comentários (2) | favorito
23
Ago 10

AGORA

Há um martelo de enigmas,
um martelo louco batendo nos nervos,
esmagando as fibras,
há um estrondo subterrâneo que sobe para as
fontes,
mas não explode,
não explode esta cabeça vencida, caída sobre
a mesa,
sobre a toalha bordada entre o jejum e as
missas, nas terras do pai.

Há um globo de magias em desuso que não
perturba quem chega, quem se senta,
com as mãos abertas, com a faca atrás,
pelo lado das costas que lançam nas paredes
um vulto sinistro, em silêncio, à espera.

Eu sei por que veio, o que quer, o que faz aqui,
mas tu ergues os cálices,
tu olhas para ela e ofereces uma rosa e
repartes o pão,
e depois adormeces e entras no túnel que dá
para as colinas de Deus,
para os seus mortos antigos.

José Agostinho Baptista
publicado por RAA às 19:32 | comentar | favorito
13
Ago 10

Agora e na Hora da Nossa Morte

autor: José Agostinho Baptista (Funchal, 15.VIII.1948)
título: Agora e na Hora da Nossa Morte
edição: 1.ª
colecção: «Peninsulares Literatura» #53
editora: Assírio & Alvim
local: Lisboa
ano: 1998
págs.: 109
dimensões: 20,5x14x1 (brochado)
tipografia: Guide
publicado por RAA às 21:05 | comentar | favorito
10
Ago 08

FEITIÇOS

Vejo-te, outra vez, pela berma das levadas, a
descer para o vale.
É a hora do lobo e dos medos nos invernos
antigos.
Na aldeia súbita que se desvenda, elas dançam
em círculo,
agitando as lanternas,
mas tu não sabes que prodígio se constrói no
âmago das trevas.
Elas cantam,
mas tu,
viajante das noites profundas, não conheces
o idioma das rainhas destronadas pelo dia.
A sua música de guizos vai para onde vais.
A água das levadas pára, transformada em
pedra.
O mar é negro e sobe até ao céu e depois
cai, como a grande solidão,
sobre as espáduas.
Em frente, na colina do terror, o teu filho
chora.


José Agostinho Baptista
noc#1
publicado por RAA às 02:59 | comentar | favorito
09
Ago 08

MÃE

Eu sou aquela que os vê.
E caminho pelos seus caminhos e sou a
fogueira distante.
O tempo não me apaga.
Tenho os pontos cardeais e sou a bússola nas
suas mãos,
quando eles vão sobre as águas.
Sou os mapas, a constelação, o cruzeiro do sul,
o arado, o cão,
aquela que os guarda.
Sou o regaço, as belas plumas do meu regaço,
a imensa luz de amor que cai sobre a sua
penumbra,
sobre a sua loucura.
Sou a mãe da sua vida, da sua morte.
E vou com eles, espalhando as rosas tristes,
e os meus cabelos espalham sobre os seus
cabelos as raízes brancas.
Sou aquela que escreve quando eles dormem,
sou as palavras através do sono.
E adormeço com eles,
fechando as últimas portas.


José Agostinho Baptista
n#3
publicado por RAA às 01:34 | comentar | favorito (1)