12
Fev 18

NA ESPALANADA DO MUSEU MARÍTIMO

Como este rio que parece dividir

dois métodos de arrumar a orfandade

de prédios acabrunhados e barracões

de ripas desalinhavadas, os solavancos

nas frases que se queriam mais escorreitas.

 

Um porta-contentores lança ferro,

liga os motores da ré e roda lentamente.

Os fumos do gasóleo espalham-se sobre um cardume

de ramos de palmeira que navega para a foz:

rio acima haverá quem se debruce

sobre o que lhe resta da tarde e peça

garantias ao que lhe tropeçou na infância

 

-- que mal recorda e em que, com algum esforço,

tenta acreditar. Outro neófito

da solidão, rendido à correnteza.

Antes do jantar, tem um par de horas

para ruminar o salitre da impermanência,

humores linfáticos. Regressará a casa,

esquecendo ser o que tem feito sempre.

 

José Alberto Oliveira, Mais Tarde (2003)

publicado por RAA às 13:52 | comentar | favorito
26
Mai 12

POEMA

A rapariga na ponte,
com a saia plissada,
uma blusa de cretone
e o cabelo apanhado
em carrapito. A família
já se sentou para jantar,
era uma noite de inverno,
cúmplice enérgica da
cidade -- autocarros vazios

empenhavam-se em regressar,
com motorista agoniados.

Por trás da porta da sala
há uma cristaleira com garrafas
de licor. Não têm rótulo
e ela vai chegar tarde.
Também isso pouco importa.
Não há lareira que lhe seque
a roupa, circula
um veneno, um nevoeiro,
uma névoa torcida e hoje
é o dia dos seus anos.

José Alberto Oliveira
publicado por RAA às 02:47 | comentar | favorito
28
Fev 12

MOTHERWELL (ELEGY FOT THE SPANISH REPUBLIC 108)

Carvão incandescente

e mineiros de um frio negro, 

vítimas da febre geral

e da privação de proteínas

 

-- um quarto onde cheira a cebola,

um gesto que se desconhece,

a partilha do único ficando azeda.

 

Foi uma lama que a geada inteiriçou,

os animais de carga que sobreviveram,

pendurada na gentileza

 

do seu corpo a roupa

interior de um homem destruído.

 

José Alberto Oliveira

publicado por RAA às 23:50 | comentar | favorito
29
Dez 11

BEATITUDE

Assim, bento de ignorância

e desleixo, deslizo

pelo cano dos dias

-- projectos? -- todos grandes 

e muitos,

certo de que o tempo

os vai gastando,

ao ritmo a que se amontoam

as beatas no cinzeiro

e com o mesmo cheiro.

 

José Alberto Oliveira

publicado por RAA às 23:57 | comentar | favorito
03
Dez 11

QUEM ESPERA?

Quem espera ser atingido pelo momento

em que, debaixo de uma figueira,

a relojoaria do mundo fica, sem aviso,

iluminada, e os andaimes da existência

se ajustam aos desígnios que, desde sempre,

suspeitou estarem-lhe reservados?

 

Uma tarde que outra (e os dias passam)

há percalços que nos traem,

heranças de que nos sabemos privados,

uma exaltação que se torna incómoda,

por causas que seria preferível ignorar

 

-- há um pedaço de terra ou a meia

hora em que poderíamos ter decidido

ser justos, uma voz

que nos falta, quantas vezes

arrastada pelo vento, com pólen, poeira,

folhas secas, ramos torcidos,

 

dela só ouvimos o rasto

que a revela humana, sem entender

as palavras. De onde chega? Para onde

parte? De um lado, o corpo

gasto, as solas rotas, do outro,

o fim das estradas, o arrepio da chuva,

 

a lama seca nas gretas dos pés.

Quem canta afunda-se em amargura,

berra, protesta que não há razões

(nem o direito) de negar aos outros

a miséria que nos assiste.

 

 

José Alberto Oliveira

publicado por RAA às 23:59 | comentar | favorito
30
Out 10

PROPOSIÇÃO

Dias turvos e inconsequentes sucedem
a dias inconsequentes e turvos.
Um apito estridente anuncia
o encerramento das portas do Metro;
a cintilação de uma chapa de zinco
cria a ilusão de sol que brilha no rio,
ao fundo. A lama enrola-se
nas veias, que o álcool nocturno
espessa -- nenhuma notícia
confirma que a dívida tem de ser
paga e é prudente desconhecer
quem a contraiu ou porquê.
O prazo caducou e é bem-vindo
todo o adiamento, confiando
que possa ser o último.

José Alberto Oliveira
publicado por RAA às 23:40 | comentar | favorito