18
Set 17

DOIS

É conveniente e sensato

ter um cão ou ter um gato.

Sentem as ondas da terra

e as garras longas da guerra,

 

Guerra que morde e se aferra

à humana condição,

cão ou gato sempre espera

que acabe tal maldição.

 

José Carlos González, Breve Tratado da Afeição (1997)

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16
Jan 17

DA DENSIDADE E DA TRANSPARÊNCIA

Vai-se formando de tudo a densidade

mãos que apertamos olhos fulvos

que algum dia se entornaram verdes

e de tão verdes anémonas sem fundo.

 

E de tudo também a transparência

em breves segundos se insinua

como aqueles corpos que fugindo

o nosso olhar e desejo desabitam.

 

Em desafio ao sol a todas as estrelas

numa ronda de encontro e despedida

vai a roda da vida nos passando.

 

Por mais vigilantes e atentos ao acaso

algo de nós foge com a única promessa

de a luz que vemos não acabar nunca.

 

José Calrlos González, Biofonias

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02
Mar 11

DOS MORCEGOS

Em aparecendo os morcegos
tudo se volta do avesso,
com vento sudoeste as nuvens
cavalgam sem tom nem som.

Cinzento céu, fazes passar
uma ideia fantástica do mar.
Vento fustigante, sabes decorar
as memórias inexactas do tempo.

Vento violento, rente ao mar
no Março findo, cheio de viúvas
e candente de estrelas ao alvorecer.

Dos morcegos a cega sinfonia
corre pelos telhados, onde iria
um monge de costas tentar ver.

José Carlos González
publicado por RAA às 23:24 | comentar | favorito
10
Fev 11

...

É dever sacro do fogo alastrar
Alar aos astros    falar
Em múltiplas línguas a origem
E sua própria consumação.

Ao homem é dever do fogo
Levá-lo rubro aos metais
Moldar-lhe a mão rupestre
Até à mais branda penugem.

São do fogo e do homem conquistas
Os planaltos    sinais no deserto
E salvação no mar.

José Carlos González
publicado por RAA às 23:57 | comentar | favorito
18
Set 10

...

Antes das pontes os rios
Antes dos castelos águias
Que levantadas bem altas
São as deusas das escarpas.

Antes do fruto uma onda
De incenso de primavera
De cavalos debandados
Por anos de tanta espera.

Antes de tudo ser ouro
No alambique escondido.

Acordar de noite acesa.
Vertical hora ser vivo.

José Carlos González
publicado por RAA às 23:11 | comentar | favorito
06
Jul 10

MEMÓRIA DE MINHA MÃE

Por que razão sempre pensei que fosses
mulher fria hierática distante
igual aos teus antepassados de Covadonga
aos celtas híbridos de Iberos
e que os teus cabelos muito jovens brancos
sinal fossem de tudo isso?

Por que razão sempre te amei tão pouco
quando amar-te era o meu mais fundo desejo
saber que quando rias era verdade
como as rias da nossa Galiza
e os recifes abruptos da velha Astúrica?

Agora que estás longe longe de mais

os teus olhos secos a tua pele com algumas sardas
o teu andar vagaroso mas vivo
agora que tudo isso é uma ideia um repouso
forçado num pequeno cemitério chamado Xiesteira

talvez comece a saber que não eras uma mulher fria
e que me amavas porventura muito
à tua hierática maneira


José Carlos González
publicado por RAA às 23:15 | comentar | favorito