14
Fev 12

...

o teu sono anoiteceu mais que a noite

e hei-de escrever-te sempre sem que nunca

te escreva sei as palavras que fechaste

nos olhos mas não sei as letras de as dizer

ensina-me de novo se ensinares-me for

ir ter contigo ao teu sorriso ensina-me

a nascer para onde dormes que me perco

tantas vezes numa noite demasiado pequena

para o teu sono num silêncio demasiado fundo

dormes e tento levantar a pedra que te

cobre maior que a noite o peso da pedra que

te cobre e tento encontrar-te mais uma vez

nas palavras que te dizem só para mim

o teu sono anoiteceu mais que as mortes

que posso suportar e hei-de escrever-te

sempre e mais uma vez sozinho nesta noite

 

José Luís Peixoto

publicado por RAA às 19:52 | comentar | favorito
01
Nov 10

...

na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.

José Luís Peixoto
publicado por RAA às 22:15 | comentar | favorito
23
Ago 10

SETEMBRO, FIM DE TARDE

a varanda era o respeito e o silêncio de onde a casa se erguia.
a minha mãe talvez fosse a sua própria voz. eu era muito novo.

a paisagem e a vida diante de mim. os pombos levavam o
meu peito em círculos no céu.

e havia uma fonte, porque há sempre uma fonte distante
na voz da minha mãe.

José Luís Peixoto
publicado por RAA às 15:21 | comentar | favorito
18
Ago 10

...

o vento. o vento, sabes, traz-me vozes que incendeiam vozes.
o mesmo que passa rente à terra da montanha, o vento,
o mesmo vento que lança a noite sobre o telhado da casa.

e o lume, o mesmo lume que iluminava a cara da minha mãe,
o lume, sabes, arde dentro de mim. esse lume é as vozes que
todos esqueceram. esse lume é as vozes dos mortos no cemitério.

os teus murmúrios gritam chamas dentro de mim. não sofro,
sei que o vento é a respiração do mundo. o lume pergunta:
quantas vezes saíste de dentro de mim para me abraçares?

José Luís Peixoto
publicado por RAA às 11:49 | comentar | favorito
25
Set 08

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mãe, cada palavra que me ensinaste repete mil vezes o teu nome

José Luís Peixoto
publicado por RAA às 22:19 | comentar | ver comentários (1) | favorito