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Out 14

JOSEFINA BAKER

De qualquer ilha escondida

no quente mar colorista,

veio essa Baker trazida

pla mão da 5.ª avenida:

o roteiro fantasista.

 

Essa negra Josefina

deixou Colombo vexado,

ligando a terra-menina,

que é branca e greco-latina,

ao continente sobrado...

 

Um demónio de negrura:

trópico aroma se exala.

Seu corpo a imagem figura

de um brônzeo clima, em tontura,

cercando à noite a senzala.

 

O ritmo antigo é perdido,

outro mundo volverá.

Nesta Europa sem sentido

a Baker marca o ruído

e o mediano o Dekobra.

 

Façam batuque, batuque,

plantem na Europa o Haiti.

Caliça que a alma amachuque,

que caia o tecto de estuque

no senhor de Valéry.

 

Velha casa brazonada,

deu-lhe o vento de ruína.

A celta flor desfolhada,

morreu de tédio pisada

aos pés dessa Josefina.

 

Luís de Montalvor,

presença # 19,

Março 1929

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11
Nov 10

A VIDA

A vida é tudo quanto Deus nos deu;
Rio por entre montes sem ter leito,
É fonte que brotou e não correu,
Que nasceu e secou dentro do peito...

A vida, a vida é qual água corrente
Que foge sem se ver por entre abrolhos.
Vem da fonte do amor -- água que sente --
E vai do peito para os nossos olhos.

A vida é ser-se lume, é ser-se brasa,
É ser aqui Desejo, ali Cuidado,
É um querer voar e não ter asa,
-- Um corpo de mulher todo apertado. --

A vida é uma rocha onde me agarro
E abraço, co'as mãos da Ânsia e do Amor;
Envolve-me cingindo o grande Vago,
E espreita-me a Morte em derredor.

A vida é o nosso amor feito escultura:
É tudo o que se aperta e que se adora.
Beleza de mulher que pouco dura --
A vida são mil anos numa hora.

A vida é um mudar-se a cada instante,
É um andar o tempo assim mudado;
É tomar um minuto por distante,
É ter por Sempre o tempo bem contado.

Luís de Montalvor
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