20
Mai 12

XVII

     Mário de Andrade, intransigente pacifista, internacionalista amador, comunica aos camaradas que bem contra-vontade, apesar da simpatia dele por todos os homens da terra, dos seus ideais de confraternização universal, é atualmente soldado da República, defensor interino do Brasil.

 

E marcho tempestuoso noturno

Minha alma cidade das greves sangrentas,

Inferno fogo INFERNO em meu peito,

Insolências, blasfêmias, bocagens na língua.

 

Meus olhos navalhando a vida detestada.

 

A vista renasce na manhã bonita.

Paulicéia lá em baixo epiderme áspera

Ambarizada pelo sol vigoroso,

Com o sangue do trabalho correndo nas veias das ruas.

    Fumaça bandeirinha.

    Torres. 

    Cheiros.

    Barulhos

    E fábricas...

    Naquela casa mora,

    Mora, ponhamos: Guaraciaba...

    A dos cabelos fogaréu!...

    Os bondes meus amigos íntimos

    Que diariamente me acompanham pro trabalho...

    Minha casa...

    Tudo caiado de novo!

   É tão grande a manhã!

  É tão bom respirar!

É tão gostoso gostar da vida!

 

A própria dor é uma felicidade...

 

Mário de Andrade

publicado por RAA às 23:40 | comentar | favorito
13
Out 10

POEMAS DA AMIGA

1

A tarde se deitava nos meus olhos
e a fuga da hora me entregava Abril.
Um sabor familiar de até-logo criava
um ar, e, não sei por que, te percebi.

Voltei-me em flor. Mas era apenas tua lembrança.
Estavas longe, doce amiga; e só vi no perfil da cidade
o arcanjo forte do arranha-céu cor-de-rosa
mexendo asas azuis dentro da tarde.

Mário de Andrade
publicado por RAA às 17:33 | comentar | favorito
13
Ago 10

O DOMADOR

Alturas da Avenida. Bonde 3.
Asfaltos. Vastos, altos repuxos de poeira
Sob o arlequinal do céu ouro-rosa-verde...
As sujidades implexas do urbanismo.
Filets de manuelino. Calvíces de Pensilvânia.
Gritos de goticismo.
Na frente o tram da irrigação,
Onde um Sol bruxo se dispersa
Num triunfo persa de esmeraldas, topázios e rubis...
Lânguidos boticellis a ler Henri Bordeaux
Nas clausuras sem dragões dos torreões...

Mário, paga os duzentos réis.
São cinco no banco: um branco,
Um noite, um ouro,
Um cinzento de tísica e Mário...
Solicitudes! Solicitudes!

Mas... olhai, oh meus olhos saudosos dos ontens
Esse espetáculo encantado da Avenida!
Revivei, oh gaúchos Paulistas ancestremente!
E oh cavalos de cólera sangüínea!
Laranja da China, laranja da China, laranja da China!
Abacate, cambucá e tangerina!
Guardate! Aos aplusos do esfusiante clown,
Heróico sucessor da raça heril dos bandeirantes,
Passa galhardo um filho de imigrante,
Louramente domando um automóvel!

Mário de Andrade
publicado por RAA às 14:24 | comentar | favorito