12
Mar 13

ESTIO

Horizonte

todo de roda

caiado de sol.

Ao meio

do cerro gretado,

esguia cabeça de cobra

olha assobios de lume

sobre espigas amarelas...

(...Campaniços degredados

na vastidão das seara

sonham bilhas de água fria!...)

 

Manuel da Fonseca,

Planície

publicado por RAA às 13:39 | comentar | favorito
28
Nov 12

POENTE

No postigo do «monte»

inquieto rosto acode

espreitando para longe

o descampado aberto.

 

(Quem vem lá na distância,

que nem a seara mexe

nem o pó se levanta

dos caminhos sem vento?...)

 

Manuel da Fonseca

publicado por RAA às 13:40 | comentar | favorito
17
Jul 12

ALDEIA

Nove casas,

duas ruas,

ao meio das ruas

um largo,

ao meio do largo

um poço de água fria.

 

Tudo isto tão parado

e o céu tão baixo

que quando alguém grita para longe

um nome familiar

se assustam pombos bravos

e acordam ecos no descampado.

 

Manuel da Fonseca

publicado por RAA às 16:01 | comentar | ver comentários (2) | favorito
17
Mar 12

Novo Cancioneiro

título: Novo Cancioneiro
prefácio, organização e notas: Alexandre Pinheiro Torres
edição integral: Terra, de Fernando Namora; Poemas, de Mário Dionísio; Sol de Agosto, de João José Cochofel; Aviso à Navegação, de Joaquim Namorado; Os Poemas de Álvaro Feijó; Planície, de Manuel da Fonseca; Turismo, de Carlos de Oliveira; Passagem de Nível, de Sidónio Muralha; Ilha de Nome Santo, de Francisco José Tenreiro; Voz que Escuta, de Políbio Gomes dos Santos.
edição: Editorial caminho
local: Lisboa
ano: 1989 
págs.: 413
dimensões: 24x17,5x2,2 cm. (brochado)
impressão: Gráfica da Venda Seca
capa: Mário Caeiro sobre ilustração de Carlos Marques
tiragem: 3000
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27
Fev 12

PARTIR!...

Eu vou-me embora para além do Tejo,

não posso mais ficar!

 

Já sei de cor os passos de cada dia,

na boca as mesmas palavras

batidas nos meus ouvidos...

-- Ai as desgraças humanas destas paisagens iguais!...

Abro os olhos e não vejo

já não ando, já não oiço...

Não posso mais...

Grita-me a Vida de longe

e eu vou-me embora para além do Tejo.

 

Passa a ave no céu bebendo azul e diz:    Vem!

O vento envolve-me numa carícia,

envolve-me e murmura: -- Vem!

As ondas estalam nas praias e vão mar fora,

as mãos de espuma a prender-me os sentidos

chamam no fundo dos meus olhos: -- Vem!

 

-- Camaradas, eu vou, esperai um pouco...

Ai, mas a vida nunca espera por ninguém...

E a noite chega vingadora;

o vento rasga-me o fato,

as ondas molham-me a carne

e a ave pia misticamente no ar;

abro os olhos e não vejo,

já não ando, já não oiço

-- e fico, desgraçado de ficar!...

 

Manuel da Fonseca

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