14
Fev 13

AMÉRICA

IV

 

Mas quando chegares a New Orleans

olha para os meus dentes teclas

de jazz,

minhas pernas múltiplas

de jazz,

minha cólera ébria

de jazz,

olha os mercadores da minha pele,

olha os matadores ianques

pedindo-me

jazz,

one

       two

             three

jazz,

sobre o meu sangue,

jazz,

milhões de palmas para mim

jazz.

 

Manuel Lima

(in Manuel Ferreira, No Reino de Caliban II)

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20
Dez 12

"Vinhas só"

Vinhas só,

o olhar poeirento

e um oásis de esperança

nas mãos desertas.

 

Vinhas só,

as carnes acesas em sangue,

os cabelos de sombra estendidos

pela terra imensa mordida de dor;

e na areia solta dos teus pés

eu vi as raízes de África.

 

Chegaste

com passos velhos de ecos

que soaram

batuque e conquista

nas noites tumultuosa da Impis.

 

Chegaste

e cresceste em mim

no gritos dos tempos.

Descansa à sombra da minha Vontade,

mãe,

eu continuarei a Jornada.

 

Manuel Lima

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26
Mai 11

SÃO MEUS ESTES RIOS

São meus estes rios
que buscam caminho
rastejando entre luar e silêncio,
sombra e madrugada,
até ao seu fim marítimo.

A minha alma está neles,
líquida e sonora
como a água entre o quissange das pedras,
o anoitecer das fontes.

Tenho rios vermelhos e quentes
na minha dimensão física,
rios remotos, remotos como eu.

Manuel Lima
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17
Dez 10

ÁFRICA

V

Reflectiu o arco-íris
as suas tonalidades múltiplas
sobre as pétalas virginais;
do fundo da terra
subiu até elas o perfume quente
das essências.

E logo foi rubra e ardente
a rosa tropical,
pálida a magnólia,
solene o cravo.

Nelas buscaram cor
as mariposas
e encheram as suas taças
os besouros;
nelas o Poeta e a abelha
encontraram a mais requintada doçura.

Brancas, verdes ou amarelas,
amo-as a todas
na sua pluralidade colorida,
na sua fragilidade perfumada.

Azuis, vermelhas ou roxas,
amo-as a todas
e peço-as
para os meus mortos
passados e futuros,
mortos da terra e do mar,
da escravidão e da liberdade,
peço flores para as novas bandeiras de África
que eu vejo desabrocharem no horizonte.

Manuel Lima
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