12
Mar 12

"Quero falar-te deste amor, como de um vento"

Quero falar-te deste amor, como de um vento

amordaçado na camisa; uma febre de verão

que o mercúrio não acha; um telhado esmagado

pela ideia da chuva. Quero dizer-te

 

que sobre ele pairaram sempre brumas e nevoeiros

e profecias de temporais maiores, como os que levam

para longe os corpos dos navios. Não há notícias

 

deste amor; apenas uma intriga, um recado sonâmbulo,

um temor que desmaia as pregas do vestido e um sortilégio

urdido nas paisagens suspensas de um mapa que aperto

na mão sem desdobrar. E há memórias

 

deste amor? A voz sem as palavras, um livro lido

às escuras, um bilhete cifrado deixado num hotel,

um velho calendário cheio de desencontros? Não,

 

não há memória deste amor.

 

Maria do Rosário Pedreira

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07
Nov 10

...

O meu mundo tem estado à tua espera; mas
não há flores nas jarras, nem velas sobre a mesa,
nem retratos escondidos no fundo das gavetas. Sei

que um poema se escreveria entre nós dois; mas
não comprei o vinho, não mudei os lençóis,
não perfumei o decote do vestido.

Se ouço falar de ti, comove-me o teu nome
(mas nem pensar em suspirá-lo ao teu ouvido);
se me dizem que vens, o corpo é uma fogueira --
estalam-me brasas no peito, desvairadas, e respiro
com a violência de um incêndio; mas parto
ante de saber como seria. Não me perguntes

porque se mata o sol na lâmina dos dias
e o meu mundo continua à tua espera:
houve sempre coisas de esguelha nas paisagens
e amores imperfeitos -- Deus tem as mãos grandes.

Maria do Rosário Pedreira
publicado por RAA às 18:16 | comentar | favorito