29
Jul 12

FRAGMENTO

O ar da tarde esperava por que o fosse

o voo que antes de ser será perdido

e o primeiro pássaro ergue-se de novo

em busca do voo do ar por que foi sido

 

Miguel Serras Pereira

publicado por RAA às 22:36 | comentar | favorito
09
Jul 12

DE TÃO PERTO

Chega a doer olhar-te de tão perto

primeiro só tocar o infinito

da distância -- depois em toda a parte

estar por dentro dela em ti -- aí

 

onde a dor de te olhar se fará dia

ou o tempo agora ama e deita carne

de regresso ao imenso sol vazio

que em tudo o que acontece permanece

 

mortal nascente branca -- e água e pura

transparância da ausência mais extrema

por onde morre e nasce enquanto pulsa

em cada veia todo o universo

 

Chega a doer olhar-te de tão perto

ousar a eternidade a tempo aberto

 

Miguel Serras Pereira

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07
Jun 12

NO ARCO DO SILÊNCIO

Para o Carlos Jorge Morgado Pereira

e para a Teresa Jorge

 

 

Foi tempo não te ver dia após dia

e tempo será ver-te à minha frente

no voo da flecha nua que desfira

o teu silêncio no arco do silêncio

 

ou no aroma de estevas que subia

entre soltas ribeiras sós e lentas

línguas de areia cujo súbito meio-dia

viria podar de sombra corpo dentro

 

o vagar da memória por que pulsa

o coração que o sono alenta ao rubro

da formosura intacta das romãs

 

Mas se outro é todo o tempo propriamente

nada há que volte ou parta enfim porquanto

ser e não-ser de tudo é sempre o tempo

 

Miguel Serras Pereira

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03
Nov 10

PROPOSIÇÃO

Para fazer pairar
de longe e ao alto
um tremular de mastros
na solidão do olhar

e para rasgar no corpo
a seara antiga
onde o tempo amou
e me deitarás contigo

é que escutei na sombra
a vibração sem voz
da tua voz nas ondas
onde ecoa a morte

Miguel Serras Pereira
publicado por RAA às 23:03 | comentar | favorito