14
Fev 12

À ESPERA DOS BÁRBAROS

-- Que esperamos na ágora congregados?

 

          Os bárbaros hão-de chegar hoje.

 

 

--Porquê tanta inactividade no Senado?

Porque estão lá os Senadores e não legislam?

 

          Porque os bárbaros chegarão hoje.

          Que leis irão fazer já os Senadores?

          Os bárbaros quando vierem legislarão.

 

 

-- Porque se levantou tão cedo o nosso imperador,

e está sentado à maior porta da cidade

no seu trono, solene, de coroa?

 

          Porque os bárbaros chegarão hoje.

          E o imperador espera para receber

          o seu chefe. Até preparou

          para lhe dar um pergaminho. Aí

          escreveu-lhe muitos títulos e nomes.

 

 

-- Porque os nossos dois cônsules e os pretores

saíram hoje com as suas togas vermelhas, as bordadas;

porque levaram pulseiras com tantas ametistas,

e anéis com esmeraldas esplêndidas, brilhantes;

porque terão pegado hoje em báculos preciosos

com pratas e adornos de ouro extraordinariamente cinzelados?

 

          Porque os bárbaros chegarão hoje;

          e tais coisas deslumbram os bárbaros.

 

 

-- E porque não vêm os valiosos oradores como sempre

para fazerem os seus discursos, dizerem das suas coisas?

 

          Porque os bárbaros chegarão hoje;

          e eles aborrecem-se com eloquências e orações políticas.

 

-- Porque terá começado de repente este desassossego

e confusão. (Como se tornaram sérios os rostos.)

Porque se esvaziam rapidamente as ruas e as praças,

e todos regressam às suas casas muito pensativos?

 

          Porque anoiteceu e os bárbaros não vieram.

          E chegaram alguns das fronteiras,

          e disseram que já não há bárbaros.

 

 

 

 

E agora que vai ser de nós sem bárbaros.

Essa gente era alguma solução.

 

Konstandinos Kavafis

 

(Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis)  

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01
Fev 12

CHE FECE... IL GRAN RIFIUTO

A algumas pessoas um dia cai

em que o grande Sim ou o grande Não sobrevém

dizer. Logo surge ao de cima a que tem

pronto dentro de si o Sim, e ao dizê-lo vai

 

além da sua honra e do que está convencida.

A que negou não se arrepende. De novo interrogada

voltaria a dizer não. Mas tem-na derrotada

aquele não -- o correcto -- toda a sua vida.

 

Konstandinos Kavafis

 

(Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis)

publicado por RAA às 14:32 | comentar | favorito
24
Jan 12

AS ALMAS DOS ANCIÃOS

Dentro dos seus velhos corpos gastos

as almas dos anciãos estão sentadas.

Que tristes são as coitadas

e como se enfastiam da mísera vida que demoram.

Como tremem de perdê-la e como a adoram

as contraditórias e atordoadas

almas -- tragicomicamente -- pousadas

dentro dos seus velhos e gastos couratos.

 

Konstandinos Kavafis

 

(Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis)

publicado por RAA às 17:12 | comentar | favorito
17
Jan 12

VOZES

Vozes ideais e amadas

daqueles que morreram, e daqueles que são

para nós perdidos como os mortos.

 

Às vezes nos nossos sonhos falam;

às vezes no pensamento as ouve a mente.

 

E com o seu som por um momento regressam

sons da primeira poesia da nossa vida --

qual música, à noite, longínqua, que se apaga.

 

Konstandinos Kavafis

 

(Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis)

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05
Jan 12

QUANDO SE EXCITAM

Procura guardá-las, poeta,

por muito que sejam poucas as coisas que podem ser detidas.

As visões do teu erotismo.

Mete-as, meio escondidas, nas tuas frases.

Procura segurá-las, poeta,

quando se excitam na tua mente,

à noite ou no esplendor do meio-dia.

 

Konstandinos Kavafis

 

(Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis)

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28
Dez 11

QUANTO PUDERES

E se não podes fazer a tua vida como a queres,

pelo menos procura isto

quanto puderes: não a aviltes

na muita afinidade com o mundo,

nos muitos movimentos e conversas.

 

Não a aviltes, levando-a,

passeando-a frequentemente e expondo-a

em relações e convívios

da parvoíce do dia-a-dia,

até se tornar como uma estranha pesada.

 

Konstandinos Kavafis

 

(Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis)

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