25
Out 10

POENTE

Morre a luz sobre o ar leve e macio,
É tarde, passa o vento devagar,
E o povo dos pinheiros, junto ao rio,
Em filas põe-se a vê-lo ir para o mar.

Sofregamente, as coisas, já com frio,
Guardam restos da luz, inda no ar,
E a sombra, pelo solo ermo e bravio,
Sonolenta, começa-se a deitar.

No ocaso, um rude monte, com cuidado,
Que o Sol não fique nele ensaguentado,
Parece agora mais redondo e mole;

E, no nome da Terra, em frente ao espaço,
Um castanheiro, ao longe, ergue o seu braço,
Comovido a dizer adeus ao Sol!

Nunes Claro
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22
Out 10

...

Pela estrada que vai, erma e comprida,
Entre montanhas duras a trepar,
Duma olaia, do vento sacudida
Morre uma folha triste, devagar.

Cantam à roda dela, em despedida,
A névoa, a brisa, o pó, mais o luar,
Porque a folha vai dar a volta à Vida
E mais verde e mais linda há-de tornar.

Mas a olaia que sabe quantas penas
Custa à raiz fazer um ramo apenas,
Um tronco, quanto, ao Sol custou de passos;

Como uma mãe, transida de receio,
Abraça as outras filhas, junto ao seio,
Aperta as folhas entre os braços!

Nunes Claro
publicado por RAA às 11:02 | comentar | favorito
01
Set 10

...

Porque as mães sempre amaram tudo quanto
Chora de baixo, ou perde algum perdão,
Quer seja a flor, que sofre em qualquer canto,
Seja a raiz, às cegas pelo chão.

E mortas -- não lhes morre ao pé um pranto,
Que elas não sequem com a sua mão,
-- Mesmo quietinhas, inda afagam tanto,
Mesmo geladas, que calor não dão!

Basta que à tarde, pequenino e estreito,
Um fio d'água passe por seu peito,
Logo julgam, de novo, os peitos cheios;

De modo que não há por todo o solo,
Miséria, que não durma no seu colo,
Desgraça, que não mame no seu seio!

Nunes Claro
publicado por RAA às 14:40 | comentar | favorito