11
Fev 14

1063 TWENTY-SIXTH ST. SANTA MONICA

Brecht na Califórnia

 

Pede-se-nos complacência

para com os bons selvagens,

se olham com expressão amável

a nobreza romana banida

de uma vez para o Ponto.

 

Aqui prossegue uma existência insular

essa Weimar das sombras,

com a sua moral rígida e os costumes austeros,

as disputas vãs e recorrentes

sobre os sentidos que toma a guerra

na Europa, como se aí um outro vivesse

o prolongamento das suas vidas amputadas

nesta margem leve e frívola da América.

 

Trocam currículos e carreiras,

declarações de rendimentos válidas por cinco anos,

pelo direito de habitar este litoral de palmeiras

e limoeiros de meridional Itália,

mas onde a musa se não demora

a soprar ventos da Cítia

entre barcos, redes de pesca

e ninfas de praia (californianas).

 

Vieram para morrer entre os Getas,

adeptos do surf & da bricolage,

à sombra de estúdios de cinema,

casinos e poços de petróleo.

 

Sabemos como a vida imita os filmes.

 

Os mítos no tempo da física

são como as estrelas poeira sem brilho

num mundo de luz artificial

e poesia impossível --

como compor hoje uma ode

ao deus menor que move,

acima do rumor de pneumáticos e motores,

os mecanismos da sorte

em Sunset Boulevard?

 

Paulo Teixeira,

O Anel do Poço /

/ Resumo -- A Poesia em 2009

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04
Fev 14

APÊNDICE À HISTÓRIA ROMANA DA EUROPA

Descobriram épocas remotas para se investirem

um passado, uma linhagem, o direito hereditário

às estradas romanas e ao nome das suas províncias.

Destros na arte de remover rios e montanhas,

multiplicaram as formas do traje e do toucado,

os artefactos de morte e a parafernália do desejo.

 

No momento do assalto, da agressão real,

quando esse desígnio de que desconhecem a causa prima

mencionar os vândalos junto à linha das fortificações,

sonharão ser um lembrete na história dos vindouros

que em seu nome proclame, luxo e munificência,

o elenco das virtudes nos predicados que ficam.

 

Paulo Teixeira,

Limiar #4

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17
Jul 13

BERNAUER STRASSE

para Mariet Meester

 

Fomos os dois em busca de vestígios

entre terrenos maninhos, guindastes,

prédios devolutos, sinais de um tempo

que recebia essa memória a esfarelar-se

sob a fúria que avança, imobiliária.

 

Seguíamos o que nos arabescos de arame

farpado, podia ter sido, quem sabe,

uma linha telegráfica e fora só um quebra-mar

onde deter-se o vazamento e a fuga

de muitos na escolha de um destino.

 

A alma encordoada, de quarentena,

isolada por um cordão sanitário

24 horas de guarda à tentação de saltar --

lugar para aramistas se lançarem

em pleno voo na cerca viva.

 

Neste tempo em que de novo conflui

cada ovelha com sua parelha,

fomos tomando o pulso a uma cidade

dividida em partes iguais pela mesma rua,

vendo como o outro lado também era

uma tela de pintura primitiva,

longa tatuagem com dizeres sibilinos

por onde subia uma vaga vegetação psicadélica

em parietárias coloridas. Até descobrirmos

numa brecha um cemitério sob a folhagem

com as cruzes de acerto que na morte

vão juntando aquilo que o tempo apartou.

 

Paulo Teixeira,

O Anel do Poço / Resumo -- A Poesia em 2009 

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07
Jun 09

NOCTURNO

Entre o poço de orquestra e a assembleia muda
vou espargindo em pequenas notas a minha vida,
erguendo a cúpula de um céu sobre o teclado.
Gravo a anatomia dos meus gestos no silêncio,
enquanto uma valsa espera dormir na gola
de um nocturno. Esta dor costurada até ao osso
e em mim aceite como um vestuário obsceno,
poção composta segundo o preceito e de um trago
bebida, sem esgares, com a alegria de quem
se mata lentamente. Sou só uma destreza manual,
a arte de acariciar nos dedos um botão nevado,
as pétalas de uma bonina, cujo som ecoa
pelos saltos de uma fonte, pelos veios de uma sepultura.

A noite como uma oportuna morada sobre as árvores,
entreaberta como o ouvido à indiscrição de um segredo,
não volta para nós a face, que é branca. Sacode
no lugar da lua a cabeça como se pensasse negar em baixo
a escuridão. Vela silenciosa a paz de quem espera
e teve no entardecer por confidente o verdadeiro espelho:
o sangue que se inscreveu no céu como uma ideia
e o sol que me devolve a sua expectoração vermelha.

Paulo Teixeira
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