14
Dez 12

CANÇÃO DO LAGO SECANDO

Pela noite da minha trágica aventura,

Meu sofrimento é o achado que afago,

Se acordado, sofrendo,

E se a dormir, sonhando

Que sou lago.

 

Adeus, ó canas, cá me vou secando!

À míngua de nascente eu parto evaporado

Sem me ver partir!

 

Ainda se os que passam pudessem beber-me

Sem tornarem a passar

Pra maldizer-me...

 

Ainda se a menina reclinada à minha beira,

Que tanto e tanto me seduz ainda,

Viesse banhar-se

E depois se afogasse em mim, violada e linda...

 

Ainda se eu,

Profundo e vasto e longo,

Pudesse ter no mapa mancha azul e portos

E ser útil à navegação...

 

Finando-me abriria a justa e verdadeira causa

À minha sede e à minha direcção.

 

Políbio Gomes dos Santos

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24
Jul 12

POEMA DA VOZ QUE ESCUTA

Chama-me lá em baixo.

São as coisas que não poderam decorar-me:

As que ficaram a mirar-me longamente

E não acreditaram;

As que sem coração, no relâmpago do grito,

Não poderam colher-me.

Chamam-me lá em baixo,

Quase ao nível do mar, quase à beira do mar,

Onde a multidão formiga

Sem saber nadar.

Chamam-me lá em baixo

Onde tudo é vigoroso e opaco pelo dia adiante

E transparente e desgraçado e vil

Quando a noite vem, criança distraída,

Que debilmente apaga os traços brancos

Deste quadro negro -- a Vida.

Chamam-me lá em baixo:

Voz de coisas, voz de luta.

É uma voz que estala e mansamente cala

E me escuta.

 

Março de 1939

 

Políbio Gomes dos Santos

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17
Mar 12

Novo Cancioneiro

título: Novo Cancioneiro
prefácio, organização e notas: Alexandre Pinheiro Torres
edição integral: Terra, de Fernando Namora; Poemas, de Mário Dionísio; Sol de Agosto, de João José Cochofel; Aviso à Navegação, de Joaquim Namorado; Os Poemas de Álvaro Feijó; Planície, de Manuel da Fonseca; Turismo, de Carlos de Oliveira; Passagem de Nível, de Sidónio Muralha; Ilha de Nome Santo, de Francisco José Tenreiro; Voz que Escuta, de Políbio Gomes dos Santos.
edição: Editorial caminho
local: Lisboa
ano: 1989 
págs.: 413
dimensões: 24x17,5x2,2 cm. (brochado)
impressão: Gráfica da Venda Seca
capa: Mário Caeiro sobre ilustração de Carlos Marques
tiragem: 3000
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