09
Abr 13

PAI

O pai quando ressona

é um tractor que lavra o sono

inquieto da casa que se abriu e fechou

para o receber ao fim da tarde

quando chega

de embrulhos nas mãos chaves sacos

de laranjas e jornais atrasados.

De mão na dobra do lençol

o pai promete acordar

para sair de novo ao amanhecer

porque a casa não lhe pertence

talvez a rua talvez um pedaço da rua

que lhe paga os passos e lhe reembolsa a liberdade.

O pai tem nas mãos o exemplo das mãos

e tem histórias da vida debaixo

das unhas cheias de óleo

com que lubrificou meus ossos em crescimento

me fez querer ser homem

dando-me daquelas mãos manchadas

machados

de enfrentar a coragem.

 

Ricardo Ferreira de Almeida

in Viola Delta, vol. XXX

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09
Jul 10

À SOMBRA DOS CARVALHOS

queimam as sombras dos carvalhos
e os casulos das castanhas no chão onde os castanheiros
se emolam
um beijo sob as folhagens da árvore dos heróis e dos druídas
mordeu os lábios em busca da saliva seiva
nossa veia
por testemunha uma orelha de gnomo e um olho de moira
o prazer e a lascívia na raiz
em círculo em nossos pés
de braços em redor
de boca a boca
sexo e alma de lés a lés

Ricardo Ferreira de Almeida
publicado por RAA às 15:25 | comentar | favorito