14
Jul 11

A UM ADOLESCENTE

Faze do instante que passa
toda a tua inspiração,
que o mundo cheio de graça
caberá na tua mão!

Sê sóbrio: com um copo de água,
um fruto e um pouco de pão,
nem sombra de leve mágoa
cortará teu coração...

Ama a rude terra virgem,
com todo o teu rude amor:
pois colherás na vertigem
de cada sonho uma flor.

Sofre em silêncio, sòzinho,
porque os sofrimentos são
o mais saboroso vinho
para a sombra e a solidão...

E, quando um dia, o cansaço
descer ao teu coração,
une à terra o peito lasso
e morre, beijando o chão!

Morre assim como indeciso
fumo que nos ares vai,
morre num breve sorriso,
como uma folha que cai...

Ronald de Carvalho
publicado por RAA às 11:31 | comentar | favorito
24
Jun 11

CREPÚSCULO

Paira no azul do céu, fino, leve, de espuma,
um dolente languor de mulher tropical.
Há, na sombra que desce, um adejar de pluma...
Choram pelos jardins repuxos de cristal.

Tal um fumo sutil, sobe no espaço a bruma.
Não tarda o luar... pois já no olente laranjal
piscam centelhas de ouro, e ainda, entre as folhas, uma
palpitação fugaz de pedraria ideal.

Calam-se na distância as estivais cigarras,
cruzam morcegos o ar. Que estranha melodia
crava na alma da gente as sibilinas garras!

Que tumultos, que ondear de dúvidas, que vão
desejo de sofrer! Que lágrima sombria
cai no vazio horror do nosso coração!

Ronald de Carvalho
publicado por RAA às 14:34 | comentar | favorito