04
Out 10

A ÁRVORE DA SOMBRA

A árvore da sombra
tem as folhas nuas
como a própria árvore ao meio-dia
quando se finca à terra
e espera
como um cão espera o regresso do dono.
Nós abrigamo-nos mais tarde
ou mesmo agora num lugar
muito distante
onde o tempo recorta
um tapete que esvoaça no papel.
A casa da sombra
é branca e habitada.
Somos nós ainda
sentados ao fogo que o teu sorriso
acende e aconchega
no silêncio que ilumina
a árvore da sombra
para que a noite desenhe
o seu nome visível
e a sombra possa contemplar
os ramos mais belos e o tronco mais esguio
do seu objecto.
Nesta sombra há um imenso amor
ao meio-dia.
A hora dos prodígios
é feita de segundos do tempo que há-de vir
e o horizonte
é a proximidade total da tua boca.

Rosa Alice Branco
publicado por RAA às 12:51 | comentar | favorito
01
Out 10

OBRA-PRIMA

Quando a tua mão acaricia a minha perna
os sensores da pele desencadeiam reacções sentimentais
e às vezes chego a ter uma reacção motora. O ângulo
da perna, a inclinação do pé -- maravilhas-te com a paisagem
ocasional: depois da curva da estrada estabilizas o olhar
na curva do joelho. Os olhos impacientam-se em sacudidelas
invisíveis mas o espelho reflecte apenas imobilidade.
A sandália: o teu olhar vai do joelho à nudez do pé. Este pé
que calcorreia as ruas é também objecto de desejo: o pé
que calca o travão a fundo. Sei que vais beijar-me -- talvez
nem tu saibas que a postura do teu corpo tem o formato
de beijo. A carícia necessita de um controlo minucioso,
da pressão exacta para que não me esmagues a rótula.
O contacto é doce na pele que te ofereço, a carícia
é a obra-prima da engenharia mecânica. Olho a baía
onde se reflectem os néons da noite e deixo o corpo
trabalhar à vontade. Depois adormeço com a tua mão
na minha perna e a vaga consciência de que o paraíso
se estende da ponta dos pés até ao cimo da cabeça.

Rosa Alice Branco
publicado por RAA às 11:28 | comentar | favorito
30
Ago 10

APANHADOR DE PÉROLAS

Às vezes a noite estende-se através da pele,
mas tu mergulhas até apanhar a pedra
lá no fundo
e uma clareira começa a abrir-se no buraco
por onde esvaziaste a noite.

Rosa Alice Branco
publicado por RAA às 14:18 | comentar | favorito
26
Ago 10

MIL E UMA NOITES

As palavras que rolam contra as pedras /
nenhuma é igual ao rosto que as desenha,
ao animal que as esconde nos seus ossos.
Cada pedra é uma aldeia abandonada que
mudou de lugar. Cada lugar uma pedra vagarosa
que regressa à existência.

Vagueio pelas casas pousadas no tempo
e o que fica delas
é uma porta entreaberta
que já não guarda nada.
Só a erva cresce, erva toda igual
a um tempo daninho que se arrasta
como pedras
incapazes de subir por um caminho íngreme
ou aceitar a deriva
das vozes que chamam sob a terra
onde ainda existe adubo
para um canteiro.

Rosa Alice Branco
publicado por RAA às 15:39 | comentar | favorito
17
Ago 10

A MULHER ILUSTRADA

O inverno traz manhãs baças pelo vidro
e o frio vai-me desenhando na pele tatuagens
que resistem à superfície antes de se afundarem
na parede dos ossos. Desenham-me o riso na pele fina
das crianças, as olheiras por cima da noite em claro,
as rugas vincando o teu rosto como um mapa do metro,
as varizes desenhando nas pernas o que te ia nos braços.

O homem do quiosque sorri pelo vidro, o cheiro do café
atravessa a rua como bálsamo sobre o corpo em chamas
nesta manhã de inverno. As tatuagens desenham-me a pele
enquanto nos tocamos sob o aroma do café.
É fácil perdê-las, a pele não guarda vestígios,
mas abre-se para dentro e deixa nos ossos um visco
espesso, um vómito coberto pela maquillage.

Rosa Alice Branco
publicado por RAA às 10:58 | comentar | favorito
11
Ago 10

O SEGREDO DA MATÉRIA

Subo ao sótão e tenho seis anos
pelas escadas que rangem
sob os pés que voam em segredo,
rangem como a porta a abrir
para a luz filtrada dos pavores da infância
onde espero um pouco
por tudo o que me espera desde a eternidade.
Tenho sete anos e a cinza confunde-se com a luz
depositada no tempo. As arcas dão a ver o outro lado
do mundo espalhado pelo chão à minha volta.
Não são objectos mas o próprio mistério da existência
que vai passando pelas minhas mãos
quando tenho oito anos, quando tenho agora
o segredo de uma porta que abre para a casa.
Percorro os caminhos da mesa, da cama, da lareira,
as raízes da casa são o sótão
onde a luz toca nas mãos o infinito.
Subo pelos olhos espantados
e espero ainda pela aurora que me aguarda
aproximando-se lentamente do seu pó.


Rosa Alice Branco
publicado por RAA às 20:51 | comentar | favorito