04
Jan 19

ESTRELA DO ENTARDECER

Regressa em Julho com a sua escolta

de desejo e medo -- o amor, onde

sempre vivi acima das minhas posses.

 

Agora aguarado as razões que me deste

para escrever estes versos sobre ti

e tenho a alegria de voltar a ver-te

 

ao fim do dia, já a cidade sossega

em todas as praças: trazes da rua na boca

o ardor de um Verão lembrado

 

que hei-de voltar a esquecer.

A esperança que nos junta é frágil

e breve é a estrela que nos guia.

 

Rui Pires Cabral, Capitais da Solidão (2006)

publicado por RAA às 13:11 | comentar | favorito
30
Mar 16

«He loved beauty that looked kind of destroyed.»*

Gostava dessa espécie de beleza

que podemos surpreender a cada passo,

desvelada pelo acaso numa esquina

de arrabalde; a beleza de uma casa devoluta

que foi toda a infância de alguém,

com visitas ao domingo e tardes no quintal

depois da escola; a beleza crepuscular

de alguns rostos num retrato de família

a preto e branco, ou a de certos hotéis

que conheceram há muito os seus dias de fulgor

e foram perdendo estrelas; a beleza condenada

que nos toma de repente, como um verso

ou o desejo, como um copo que se parte

e dispersa no soalho a frágil luz de um instante.

Gostava de tudo isso que o deixava muito a sós

consigo mesmo, essa espécie de beleza arruinada

onde a vida encontra o espelho mais fiel.

 

*James Gavin, Deep in a Dream: The Long Night Of Chet Baker, Londres, Vintage, 2003, p. 312.

 

Rui Pires Cabral, Oráculos de Cabeceira /

/ Resumo -- A Poesia em 2009

publicado por RAA às 21:32 | comentar | favorito