17
Mai 11

TEUS OLHOS

Teus olhos, Honorine, cruzaram oceanos,
longamente tristes, sequiosos,
como flor aberta nas sombras em busca do sol.
Vieram com o vento e com as ondas
através dos campos e bosques da beira-mar.
Vieram até mim, estudante triste,
Dum país do sul.

Ruy Cinatti
publicado por RAA às 11:45 | comentar | favorito
26
Nov 10

...

Quando o amor morrer dentro de ti
Caminha para o alto onde haja espaço,
E com o silêncio outrora pressentido
Molda em duas colunas os teus braços.
Relembra a confusão dos pensamentos,
E neles ateia o fogo adormecido
Que uma vez, sonho de amor, teu peito ferido
Espalhou generoso aos quatro ventos.
Aos que passarem dá-lhes abrigo
E o nocturno calor que se debruça
Sobre as faces brilhantes de soluços.
E se ninguém vier, ergue o sudário
Que mil saudosas lágrimas velaram;
Desfralda na tua alma o inventário
Do templo onde a vida ora de bruços
A Deus e aos sonhos que gelaram.

Ruy Cinatti
publicado por RAA às 15:29 | comentar | favorito
11
Nov 10

...

Ali onde as rosas se doavam
A quem, pousando a mão, se debruçasse,
Ficou uma saudade sem história
Nem dor... Só de alegria
O sentimento pleno a quem ousasse
Colhê-las na memória.

Ninguém perceberá morta a distância,
Nem o aroma breve que evolavam.

Só a saudade de uma luz perfeita,
Descendo na minha alma a minha vida,
Descobre, junto a uma pétala desfeita,
O teu olhar puríssimo.

Ruy Cinatti
publicado por RAA às 11:07 | comentar | favorito
14
Out 10

...

Ouve!
Suspende timidamente a âncora perdida:
Debruça-te ao de leve na trémula paisagem,
E depois suspira.

Ouve!
Efémeros são os sorrisos do orvalho:
As formas veladas espreitam, fugitivas,
O fluido das estrelas.

Ouve!
Prendeu-se o coração de alguém enamorado,
Lamentam as árvores nuas o herói adormecido,
E o instante pára.

Mas tu não ouves...
Só tu sobrevives e rasgas no abismo
Os véus castos do sonho!

Ruy Cinatti
publicado por RAA às 16:37 | comentar | favorito
23
Ago 10

SENTIMENTO

para António Barahona da Fonseca

A noite transfigurou-se em penas d'ave
e a miudinha chuva sacudiu-as
e a noite recolheu-se aos astros, suave,
e adormeceu as almas esquecidas.
O grande pequeno homem admirou-se,
olhou para si e viu-se vazio.
Chorou então o tempo perdido
e perdeu-se na noite, frio e quente.

7.XII.76

Ruy Cinatti
publicado por RAA às 23:31 | comentar | favorito