SOLIDÃO MARINHA

Eu tombei do convés do transatlântico
Em meio às ondas, como num letargo...
Lá se vai o voador -- peixe romântico --
Passam: toninha, méro, anchôva e pargo.

A rolar, tão sòzinho, pelo Atlântico,
Levado, brutalmente para o largo,
Nem da sereia posso ouvir um cântico
Que iluda e enleve o meu destino amargo.

Jangadinha que, ao longe, a vela enfunas,
Enfeitiçada de alegria intensa,
Como um lenço acenando para as dunas...

Dize a todos de terra a minha crença
De lutar, com essas ondas importunas,
E me abismar na solidão imensa...

Rio, 7-11-1945.

Sabino de Campos
publicado por RAA às 11:07 | comentar | favorito