28
Ago 16

UMA CERTA DIGNIDADE

Uma certa dignidade

difícil. Não de atitude

ou gesto a premiar

nem de intuito cego

sem regras por que a ter

De nossos olhos

uma palheta irisa a fenda

que há nos céus sujos

da terra. Olhamos um ovo

um qualquer princípio de vida

assim hermético

em que mesmo a luz resvala

e só a imaginação, a melhor

compromete. Uma dignidade

de que ninguém nos fale alto.

Pressaga.

 

Sebastião Alba, A Noite Dividida (1996)

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18
Nov 15

AS MÃOS

Componho com as linhas dos meus dedos outros puros

cujas pontas façam girar nenhum raio sucessivo

de sol Dedos sem o cadastro de enlaces doendo

e se declamo ficções que eles escorem

Sem par noutras mãos Nem fundos na algibeira

mexidamente obscenos e a salvo da garra dos gatilhos

Dedos com um horizonte de pálpebra baixando

que assim não acordem as formas tacteadas

donde um sono mane estrie os paços vedados

Dedos de que mesmo a chuva escorra sem uma lágrima

Ou os que já compus e assinam e adiam o poema.

 

Sebastião Alba, A Noite Dividida (1996)

publicado por RAA às 18:44 | comentar | ver comentários (5) | favorito
18
Mar 11

A Noite Dividida

autor: Sebastião Alba (Braga, 11.III.1940 -- 14.X.2000)
título: A Noite Dividida
colecção: «Peninsulares / Literatura» #48
editora: Assírio & Alvim
local: Lisboa
ano: 1996
págs.: 158
dimensões: 20,6x13,5x0,9 cm. (brochado)
impressão: Guide - Artes Gráfica, Lisboa
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12
Dez 10

COMO OS OUTROS

Como os outros discípulo da noite
frente ao seu quadro negro
que é exterior à música
dispo o reflexo Sou um
e baço

dou-me as mãos na estreita
passagem dos dias
pelo café da cidade adoptiva
os passos discordando
mesmo entre si

As coisas são a sua morada
e há entre mim e mim um escuro limbo
mas é nessa disjunção o istmo da poesia
com suas grutas sinfónicas
no mar.

Sebastião Alba
publicado por RAA às 23:56 | comentar | favorito
30
Jul 10

O RITMO DO PRESSÁGIO

A tinta das canetas
reflui de antipatia
e impregnadas, assíduas
cambam as borrachas
Não há fita de máquina
que o uso não esmague
o vaivém não ameace
de dessorar os textos
Mas a grafia nada diz
de pausas na cabeça
Vozes inarticuladas
adensam, durante elas
uma tempestade
recôndita
E nubladas carregam-se
as suspensões
encadeando em nós
o ritmo do presságio.

Sebastião Alba
publicado por RAA às 01:25 | comentar | favorito