26
Mar 12

"Desta perda geral, mágoa comua"

Desta perda geral, mágoa comua

A Sua Majestade dar queria

Um pêsame que fora uma alegria

A ser de minha sogra e não da sua.

 

Se à minha não há morte que a conclua,

À sua crer devemos com fé pia,

Que vestida e calçada ao Céu iria,

Como a minha ao Inferno, nua e crua.

 

E pois, ainda que pobre, eu também entro

Na mágoa universal desta senhora

Que tenho impressa d'alma bem no centro;

 

Estimara que el-Rei fizesse agora

Com que este dó, que trago cá por dentro,

Também se me enxergasse cá por fora.

 

Tomás Pinto Brandão

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28
Ago 10

EPITÁFIO SEGUNDO

Caminhante que vais tão de corrida,
Pois em nada reparas na jornada,
Repara por tua vida no meu nada
Que foi toda uma morte a minha vida.
Também no mundo andei muita partida,
Posto que em diligência mal parada;
E por não ser mentira incorporada,
Uma verdade sou desvanecida.
Eu tive ocupação sem exercício,
Eu fui mui conhecido, sem ter nome,
E eu, ingrato, morri sem Benefício.
Exemplo toma em mim, ó pobre Homem,
Que se tratares mal, vives de vício,
E se viveres bem, morres de fome.

Tomás Pinto Brandão
publicado por RAA às 03:20 | comentar | favorito